sexta-feira, 17 de julho de 2009

Andando na Luz, Abandonando o pecado





O título da lição desta semana é duplo, mas aponta para uma única experiência. Andar na luz é simultâneo com abandonar o pecado e vice-versa. É uma grande incoerência alguém pretender uma coisa descartando a outra, pois não é possível andar na luz e viver no pecado ao mesmo tempo. Esse era o caso dos dissidentes gnósticos que perturbavam a igreja nos dias do ministério pastoral do apóstolo João na Ásia Menor. Eles alegavam uma coisa e viviam outra. João chamou a atenção para o fato de que eles não sustentavam a verdade, não a demonstravam por seus atos. Sobre isso, Jesus já havia dito: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7:16). O pecado tem que ser banido.


Assim, a partir do verso 5 do primeiro capítulo da epístola (com possível antecipação para o 4), o apóstolo entrou para valer no combate à heresia. Como já foi afirmado, ele o fez indiretamente, enfatizando a verdade e contrastando-a com o erro e suas consequências. E com isso, as exortações dirigidas à sua comunidade se tornam preciosas admoestações para nós hoje.


Uma das peculiaridades que caracterizam o quarto Evangelho, também se faz presente na primeira Epístola. Expressões positivas são confirmadas ou complementadas com negativas do mesmo teor, para enfatizar determinados pontos, salientando seu caráter crucial e conclusivo e deixando o leitor numa verdadeira “crise de decisão”.


Nota-se esse detalhe nos versos selecionados para estudo nesta semana, especialmente entre 5 e 10 do primeiro capítulo. Vamos conferir:


Texto

Expressão Positiva

Expressão Negativa

1:5

Deus é luz...

...e nEle não há trevas

1:6

Se dissermos que mantemos comunhão com Ele, e andarmos nas trevas, mentimos...

...e não praticamos a verdade

1:8

Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos,...

...e a verdade não está em nós

1:10

Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-Lo mentiroso...

...e a Sua palavra não está em nós


Este meio de expressão continua nos versos seguintes. É o recurso de que João se vale para admoestar os leitores a não se deixarem demover do caminho em que foram instruídos a palmilhar, e no qual deviam permanecer firmes até o fim.


A luz (1Jo 1:5)


Afirmando que Deus é luz, João não estava simplesmente enunciando uma abstração filosófica sobre Ele, embora o termo se prestasse para isso (os filósofos apreciavam divagar sobre a luz, seus efeitos e implicações). Suas considerações são de ordem prática: têm que ver com a ética cristã ― o estilo de vida esperado dos seguidores de Jesus.


É verdade que, para os filósofos, o tema da luz também envolvia aspectos morais. Por exemplo, os gnósticos em geral presumiam que luz e trevas refletiam o conflito entre o bem e o mal numa paridade de forças. Para o cristianismo, todavia, a luz raiou em Jesus para superar as trevas (veja Jo 1:5), implicando que o seguidor de Cristo não nutrirá nenhum comprometimento com elas (veja 1Co 6:14-7:1).


De fato, Jesus, a luz do mundo (Jo 8:12), foi claro em afirmar que ser luz do mundo é igualmente a missão de Sua igreja (Mt 5:14). Os cristãos não são “homens da carverna”; seguem a “luz” e por isso não andam “em trevas” (Jo 8:12). A esse respeito, Paulo lembra-os com estas palavras: “... outrora vocês eram trevas, mas agora são luz no Senhor. Vivam como filhos da luz... e aprendam a discernir o que é agradável ao Senhor” (Ef 5:8, 10, NVI).


Eis algumas virtudes da luz: pureza, transparência, calor, clareza (ou iluminação), penetração, revelação (ou visão), e fator de vida e crescimento. Deus é tudo isso! Ele não Se compromete um milímetro sequer com as trevas. Assim, ao dizer que Ele é luz, João faz uma significativa alusão ao Seu caráter – Sua santidade é colocada em evidência. A lição destaca esse ponto afirmando que “Deus é pura santidade, pura bondade, pura justiça. Ele é, de certo modo, tão oposto ao pecado quanto as trevas são à luz.”


O problema do pecado (1Jo 1:6, 8, 10)


Isso, naturalmente, deveria refletir na conduta geral dos que se dizem cristãos. Daí as colocações juaninas registradas nos versos seguintes da epístola. Não se pode manter comunhão com Deus e ao mesmo tempo andar nas trevas (v. 6). Uma vivência na luz, porém, se espelhará na comunhão recíproca dos crentes, e na repulsa a uma vida de pecado (v 7-10; 2:1-4). O apóstolo chega ao clímax de sua argumentação com as palavras de 2:6: “Aquele que diz que permanece nEle, esse deve andar assim como Ele andou.”


A conclusão é que aqueles cristãos dissidentes, gnósticos como eram, não viviam em consonância com a fé genuína. A própria atitude deles em conspirar contra a unidade da igreja comprovava esse fato. Eles contribuíam para dividir a igreja e, assim, interromper a comunhão dos membros entre si (v. 7), e isso era pecado. Não é esse o fruto de qualquer dissidência que se levanta contra a verdade?


E o que era pior: o gnosticismo iludia seus adeptos com a ideia de que não eram pecadores. É triste, mas é verdade! Quanto mais nas trevas, menos se dintingue o caráter infiltrante e impregnante do pecado, e menos o pecador se reconhece como tal.


Havia o conceito de que a posse da gnōsis, o conhecimento das coisas relacionadas com a Divindade, conferia ao possuidor um tipo de imunização contra o mal, mesmo que ele o praticasse. Os iniciados, aqueles que se submetiam ao processo de admissão ao sistema, julgavam-se, não importando como viviam, acima de qualquer coisa relacionada com o mundo da matéria, e o pecado era uma destas coisas. Pretendiam que nada poderia atingi-los nem contaminá-los. Sentiam-seilluminati (os iluminados).


O apóstolo se opôs a tudo isso em suas considerações quanto à luz e as trevas, à verdade e ao engano, à santidade e ao pecado. Como poderiam ser os iluminadosse viviam em trevas?! Ele foi claro em afirmar que os que assim se imaginavam estavam enganando a outros e a si mesmos, e fazendo Deus passar por mentiroso (v. 6, 8, 10), pois já as páginas do Antigo Testamento haviam declarado que não há um só dentre os seres humanos que não peque (Ec 7:20; Sl 14:2, 3 [53:2, 3]; 142:2); e no Novo Testamento, o assunto se tornou ainda mais definido, principalmente com as colocações de Paulo em Romanos 3:20-23.


De maneira que é parte preponderante da mensagem cristã a universalidade do pecado. Como a lição afirma, a não pecabilidade é “ensino contrário à mais básica doutrina cristã.” Ai dos perfeccionistas que imaginam poder alcançar uma condição sem pecado antes daquele ditoso momento em que Cristo “transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo de Sua glória, segundo a eficácia do poder que Ele tem de até subordinar a Si todas as coisas” (Fp 3:21; veja também 1Jo 3:2). Antes desse momento, dizer alguém que está sem pecado será sempre uma mentira insolente, um pretensioso desdém àquilo que Deus, em Cristo, fez pelo pecador. Como alguém escreveu a um amigo: “hoje completam 45 dias que não peco.” Triste ilusão! Ellen G. White vai ao ponto quando diz: “O que me foi mostrado é que quem afirma triunfalmente que não peca mais, pela sua própria ostentação demonstra quão longe está desse estado” (
Life Sketches, p. 84).


A lição observa também que há, aqui, uma progressão, um crescendo de seriedade no que respeita à presunção de alguém declarar não ser pecador. “No verso 6, as pessoas estão mentindo. No verso 8, elas se enganam a si mesmas. No verso 10, elas tornam Deus um mentiroso.”


Assim, João foi demolindo, uma a uma, as pilastras do perfeccionismo gnóstico (e pernóstico). Aliás, qualquer forma de perfeccionismo inevitavelmente conduz a conclusões condenadas pelo apóstolo. E para deixar bem claro que tudo aquilo era, de fato, condenável, ele falou, sem rodeios, da condição humana sob o poder do pecado.


Praticamos o pecado porque somos pecadores, e somos pecadores porque, antes de tudo, o pecado reside em nós; e reside em nós desde nove meses antes do nosso nascimento. Essa verdade provém igualmente das páginas do Antigo Testamento. Davi declarou em profunda consternação pelos terríveis pecados que havia cometido: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51:5). Assim, somos pecadores antes mesmo de praticarmos o pecado.


João não ignora essa triste realidade. Antes que ele afirmasse categoricamente: “Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-Lo mentiroso e Sua palavra não está em nós” (1Jo 1:10), ele já havia declarado: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós” (v. 8). Isso é ainda mais significativo. Não se refere, como no verso 10, a atos pecaminosos específicos, mas ao sentido essencial do pecado, como algo inerente a nós.


Em seu princípio básico, o pecado reside em nós, tenhamo-lo já cometido ou não. A terminologia juanina equivale a: “Se dissermos que não possuímos pecado nenhum...”. Antes de cometermos atos pecaminosos, temos uma natureza pecaminosa, e isso distingue pecaminosidade ativa de pecaminosidade passiva. A lição toca esse ponto ao declarar: “Como seres caídos, afundados no pecado, os seres humanos pertencem por natureza à esfera das trevas, e não ao reino da luz... Embora João fale contra a prática do pecado, ele é muito claro sobre a realidade desse mal em nossa vida.” Negar isso é tola altivez.


Respostas para o problema do pecado (1Jo 1:7, 9; 2:2)


Alguém disse que “pecado é a vontade de fazer o que Deus não quer, de conhecer o que Deus não reconhece, de amar o que Ele não ama”. Em outras palavras, é tudo o que não se harmoniza com o caráter e a vontade de Deus.


Pecado é também rebelião contra Ele. Como Plínio Salgado definiu, “é a subversão da ordem estabelecida por Deus”. Isso é subentendido na definição juanina de pecado exarada em 3:4: “...pecado é a transgressão da Lei.” O termo original, vertido “transgressão” em nossas Bíblias, anomía,aponta para além de um simples ato contrário ao que a Lei de Deus determina; envolve a ideia de condição. A prática do pecado evidencia uma condição de rebelião, de ilegalidade (o sentido de anomía).


É por isso que não pode haver algo pior que viver no pecado, pois este gera a morte (Rm 6:23; Tg 1:15). A lição se refere a esse fato quando diz: “...uma coisa é certa: O pecado é real e, a menos que seja tratado, nos destruirá.”


Graças a Deus, há solução para o mais terrível problema do Universo, e tratamento para o pior dos males. O grande pregador Charles Haldon Spurgeon costumava dizer: “O pecado é soberano até que a graça o destrone.” João, que realçou devidamente a seriedade do pecado (como observado no comentário de ontem), foi suficientemente claro a esse respeito; ele nos oferece a única receita eficaz para curar esse terrível mal.


Para começar, e não poderia ser diferente, ele lembra a seus leitores que Jesus “é a propiciação para os nossos pecados” (2:2 – “expiação”, em lugar de “propiciação”, seria mais próprio nesse texto). Como a lição afirma, “o perdão dos pecados se tornou possível graças à morte de Cristo na cruz, ao derramamento de Seu sangue como sacrifício. Porque transgredimos a lei e, portanto, merecemos a morte, Ele morreu em nosso lugar e nos libertou da condenação eterna que, de outra forma, nossa transgressão traria.” Isso define fundamentalmente a solução para o pecado.


João toca também em outras implicações da morte de Jesus; ela não somente nos provê perdão, mas igualmente a necessária purificação (1:7), já que o pecado infecta, conspurca, corrompe, degrada, avilta. Ele ainda acrescenta o que se espera que o ser humano faça – reagir favoravelmente ao que Deus proveu para ele na pessoa de Jesus. Essa reação favorável efetivará nele a solução para o pecado que a cruz proveu.


Costumamos dizer que o arrependimento é o primeiro passo em direção ao perdão, e, de certa forma, isso é verdade. Mas um gesto preliminar, sem o qual o arrependimento se torna impossível, tem sua razão de ser: o reconhecimento de que sou pecador. Por que eu iria ao médico se não estou convencido de que estou doente? Como irei me arrepender do pecado, se nem pecador me sinto?


Foi por isso que João teve de insistir na impropriedade de alguém negar sua pecaminosidade, quer passiva, quer ativa, como se viu no comentário de ontem. Tal negação é fatal porque impede o arrependimento; e, faltando este, o pecador terá que assumir totalmente as consequências do pecado.


Só se chega à convicção do pecado pela operação do Espírito Santo na consciência humana (Jo 16:8). A lei de Deus é o instrumento por Ele empregado com tal objetivo, pois é por ela que “vem o pleno conhecimento do pecado”, e que este se mostra “sobremaneira maligno” (Rm 3:20; 7:13). Vendo-se perdido e, consequentemente, necessitado de salvação, o pecador, através do Evangelho, descobre o quanto deve ao Deus que lhe proveu o Salvador; tocado pela bondade divina, ele é conduzido ao arrependimento (2:4).


É verdade que João não fala explicitamente do arrependimento, mas este está subentendido no ato da confissão, para ele imperativo para que o perdão divino seja outorgado e para que o pecador seja purificado (1Jo 1:9). Assim, a convicção do pecado leva ao arrependimento, e este, à confissão que resulta no perdão e purificação. Tudo isso significa rompimento com o pecado (veja Pv 28:13).


É curioso que o apóstolo afirme que Deus “é fiel e justo” para perdoar. Esperaríamos que fosse “fiel e misericordioso”, pois o perdão se liga naturalmente à misericórdia. Mas aqui o perdão provém da fidelidade e da justiça de Deus. Como entendê-lo?


Bem, Sua fidelidade evoca o fato de que Ele é o Deus do concerto, que, em Jesus, tornou-se nova aliança; Ele é fiel no cumprimento das provisões do concerto feito em nosso favor, e uma delas é o perdão. Perdoar é também um ato da justiça divina, pois ao morrer por nós, Jesus pagou nossa dívida para com a justiça. Ficamos isentos dela pelo perdão outorgado, e esse é conferido como um ato de justiça da parte de Deus, como é justo que uma dívida paga não seja cobrada a segunda vez.

E com isso, a solução do problema do pecado se consuma.


O alvo do cristão (1Jo 2:1)


A partir de 2:1, João estreita ainda mais a maneira de se dirigir àqueles a quem escreve. O tratamento indica um relacionamento bastante íntimo do escritor com os leitores, o que seria próprio de um pastor com aqueles sob sua responsabilidade: “filhinhos” (aqui e nos versos 12, 14, 18 e 28; e em 3:7, 18; 4:4; e 5:21), e “amados” (em 2:7; 3:2, 21; 4:1, 7, 11). Indica também sua afeição por eles e interesse por seu bem-estar.


Neste ponto, João demonstra preocupação com o risco de ser mal interpretado. Tudo o que ele falou condenando a atitude perfeccionista dos dissidentes, algo como o erro de se declarar isento de pecado, etc., poderia levá-los à conclusão de que, para o apóstolo, o pecado seria coisa de somenos, e que ele até esperava que os leitores o cometessem, desde que o confessassem para obter perdão; que viessem a considerar o pecar como uma ocorrência regular na vida cristã.


Portanto, suas declarações poderiam ser tomadas como licença para pecar, o que seria uma tremenda impropriedade. Assim, o escritor se apressa em fechar a porta a qualquer ideia distorcida que o tomasse como um transigente liberal. O desejo de Deus de salvar o pecador nunca pode ser interpretado como indulgência com o pecado. O perfeccionismo e o legalismo são tão repulsivos a Deus quanto o liberalismo e o relapsismo.


João então esclarece que uma das razões porque lhes escreveu é que não pecassem. “Filhinhos, estas coisas vos escrevo para que não pequeis...” (2:1). Ou como a lição o apresenta, que eles deveriam “renunciar completamente ao pecado.” Ué! Será que o apóstolo, de repente, tornou-se perfeccionista? Não! Ele não estava contradizendo aquilo que ele mesmo acabara de afirmar: que não podemos dizer que não pecamos (1:10); muito menos desejando para seus leitores aquilo que tão veementemente condenara. A lição continua: “Ao fazer isso, ele não está sugerindo que é possível uma existência completamente sem pecado, mas está pedindo que os cristãos se afastem de todo ato definido de pecado... O alvo de um discípulo de Cristo é não pecar. Os cristãos devem admitir que são pecadores, mas devem procurar viver sem pecado.”


Assim, João lhes lembra o propósito de Deus de, por meio de Jesus Cristo, resgatá-los completamente do pecado. Ele lhes fala em termos do grande ideal divino, de se tornarem semelhantes ao Filho de Deus (v. 6); uma atitude de confiança própria que leve à reinvindicação de impecabilidade é totalmente incompatível com esse ideal.


Uma coisa é alguém simplesmente professar impecabilidade; outra, exatamente oposta, é ele lutar contra o pecado para superá-lo pelo poder da graça. Era isso o que o escritor almejava para seus leitores, conforme eles avançam na experiência da comunhão com Deus, o que podemos chamar de processo da santificação. Como Marshall diz, “o pecado não confessado é incompatível com a comunhão com Deus. O ideal de João, portanto, era que seus leitores tanto reconhecessem seu pecado e o confessassem, quanto procurassem viver sem pecado” (I. Howard Marshall, The Epistles of John, p. 116). Quanto a isso, veja sua admoestação em 3:6, 9.


Que João continua se opondo ao perfeccionismo fica evidente quando ele diz que “se, todavia, alguém pecar...”. Ele via o pecado como uma eventualidade na vida cristã.


O conforto dos cristãos (1Jo 2:1, 2)


João expôs seu anelo pelos os crentes para que não pecassem. Mas ele estava consciente do poder sedutor do pecado, e então, lhes assegurou que, no caso de virem a pecar, não precisavam ficar aflitos e sem esperança. Deus tem tomado providência a esse respeito também. “Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo.”


Esse é um dos textos mais alentadores do Novo Testamento. Assegura-nos que não estamos sozinhos na batalha da fé. Um que jamais conheceu derrota atua em nosso favor, e isto junto à Fonte de todo poder e bênção. Consideremos três preciosos ingredientes do texto:


“Advogado” é versão do grego paráklētos, vertido “Consolador” em João 14:16, 26; 15:26; 16:7, em referência ao Espírito Santo, identificado como “outro Consolador” no primeiro destes textos, o que pressupõe um Consolador prévio ― o próprio Jesus. Portanto, parákletos pode ser legitimamente aplicado a Ele. Etimologicamente, o termo significa chamado para estar ao lado de para apoiar, confortar, orientar, defender, etc.


No contexto do que João estava afirmando, a melhor versão para o termo é mesmo “Advogado” como consta em nossas Bíblias. Mas permanece o fato de que, embora junto ao Pai, Jesus é parákletos, aquele que veio para Se colocar ao nosso lado, como Ele mesmo prometeu: “...estou convosco todos os dias até a consumação do século” (Mt 28:20). Isto se torna possível através do outro parákletos, que, segundo a promessa de Jesus, veio para estar conosco “para sempre” (Jo 14:16). Em verdade, Jesus está pessoalmente junto ao Pai, e essencialmente, através do Espírito, junto a nós.


Por Sua vez, o Espírito Santo, como parákletos, também intercede por nós (Rm 8:26, 27), mas “junto a nós”, enquanto Jesus, também como parákletos, intercede por nós, mas junto ao Pai.


“Junto ao Pai” significa nenhum véu, muito menos parede ou muro, separatórios entre Ele e Deus. Por meio dEle temos direto acesso “ao Pai em um Espírito” (Ef 2:18). Foi por isso que Ele disse: “Ninguém vem ao Pai senão por Mim” (Jo 14:6). João confirma tudo isso no encerramento de sua epístola: “Estamos no Verdadeiro [o Pai], [estando] em Seu Filho Jesus Cristo” (5:20).


Vale lembrar também que a intercessão de Jesus junto ao Pai não é para convencê-Lo a nos amar. Todo o processo, do qual Ele, Seu amado Filho e o Espírito Santo participam, e pelo qual podemos nos achegar “confiadamente ao trono da graça a fim de recebermos misericórdia” (Hb 4:16) foi provido por Seu amor por nós (veja Jo 16:26, 27). A esse respeito, Ellen G. White diz: “A expiação não foi realizada por Cristo para induzir o Pai a amar àqueles que, doutra maneira, Ele odiava; também não teve o objetivo de criar um amor que antes não existia; mas como manifestação do amor que já estava no coração do Pai” (Signs of the Times, 30 de maio de 1895).


Como a lição afirma: “Jesus não precisa apaziguar o Pai. Ao contrário, foi o Pai que revelou, em Jesus, Seu desejo de nos salvar.”


“Jesus Cristo, o justo” evoca-nos o meio pelo qual fomos aceitos como filhos e, como tais, herdeiros de todas as coisas: a Sua justiça. Com efeito, justificação pela fé é o único método de salvação.


Junto a um Deus “justo” (1:9), só um Advogado “justo” poderia atuar eficazmente em nosso favor. Em outros termos, a eficácia do ministério celestial de Jesus tem Sua justiça como razão de ser. Por Sua justiça, Ele nos endossa o perdão e todo o auxílio necessário para prosseguirmos fiéis; e finalmente, ter direito à entrada em Seu reino.


Pode haver algo mais confortador que tudo isso que o Céu nos apresenta? Sabermos que, não importando quão falhos somos e quantas vezes caímos, Deus está aí para nos amparar, fortalecer e restaurar? Que Sua mão nunca se retrai negando-nos uma calorosa acolhida?


“Ora, nosso Senhor Jesus Cristo mesmo, e Deus nosso Pai que nos amou e nos deu eterna consolação e boa esperança, pela graça console os vossos corações...” (2Ts 2:16, 17).


Autor: José Carlos Ramos – D. Min




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