domingo, 13 de dezembro de 2009

Advertências para a segunda geração





No estudo desta semana consideramos alguns tópicos relacionados aos capítulos 26 a 32 de Números, os quais falam da experiência dos israelitas na fronteira de Canaã. A reflexão sobre a experiência passada é motivo de aprendizado para os cristãos que creem estar no limiar do reino celestial.


Desafios da segunda geração


Aproximadamente 40 anos haviam transcorrido. Do primeiro censo israelita (Nm 1), na região do Sinai, para o segundo (Nm 26), nas campinas de Moabe, a variação dos dados foi pequena. O primeiro censo contabilizou 603.550 homens acima de 20 anos, aptos para a guerra. O segundo totalizou 601.703.1 Um insignificante decréscimo de 0,3%. À primeira vista, isso pode parecer positivo diante de todos os desafios da vida no deserto. Porém, uma palavra ajuda a definir a experiência israelita vivida entre as quase quatro décadas que separaram os dois censos: estagnação. O tempo passou, mas o mesmo número de homens continuava com o mesmo desafio: tomar posse da Terra Prometida.


A experiência da primeira geração foi inicialmente grandiosa, com a saída do Egito por meio dos sinais e prodígios divinos. Porém, perdeu-se em uma rotina de muito movimento mas pouco progresso. O recuo diante do desafio da conquista de Canaã (Nm 13), iniciado a partir do relatório negativo dos dez espias temerosos, degenerou em perda da visão e da missão que se alicerçavam na promessa divina. De todos os homens contados no primeiro censo, apenas Josué e Calebe também foram contados no segundo. Exatamente os únicos que mantiveram a visão nas promessas de Deus e o coração aquecido pela missão da conquista. Para os demais, a perda de sentido para sua peregrinação coincidiu com a perda da própria vida durante suas vagueações.


A segunda geração de israelitas peregrinos precisava aprender com os erros do passado. “A peregrinação pelo deserto não foi simplesmente ordenada como um juízo sobre os rebeldes e murmuradores, mas servia à geração que crescia, como disciplina preparatória à sua entrada na Terra Prometida”2. Porém, esse aprendizado não significava meramente apontar os erros da geração anterior. Na realidade, significava identificar de que maneira eles se repetiam na própria experiência. Significava romper padrões de conduta, cômodos mas absolutamente equivocados e ineficientes.


O episódio de Baal-Peor (Nm 25) mostra que a segunda geração tinha a mesma inclinação para a idolatria e pecados decorrentes manifestados pela antiga geração no episódio do bezerro de ouro (Êx 32). Porém, o relato bíblico revela que é possível construir caminhos novos e obter vitória onde se havia tido derrota. A vitória sobre a idolatria e a licenciosidade teve como continuidade a vitória sobre os inimigos. 

A guerra contra os midianitas, feita por 12 mil homens de Israel (Nm 31:5), teve como resultado a aniquilação daquele povo. A mentalidade contemporânea tem dificuldade em compreender o porquê de tamanha destruição: de todo o povo midianita: restaram vivas apenas 32 mil mulheres virgens, sem culpa no caso de Baal-Peor.



As guerras da antiguidade tinham forte ingrediente espiritual: “Significavam mais do que conflitos entre exércitos, mas um duelo entre divindades”. O confronto entre israelitas e midianitas também demonstrava a oposição entre dois sistemas religiosos: religião ética versus religião mágica. Yahweh, reconhecido pelos israelitas como único e verdadeiro Deus, relacionava-Se com Seu povo por meio da aliança. Nessa relação, havia direitos e deveres bem claros que regulamentavam a interação entre Deus e os homens, e o derramamento de bênçãos e maldições. A obediência aos padrões éticos revelados por Deus configurava uma religiosidade que unia fé e razão. 


Por outro lado, a religiosidade mágica dos midianitas era praticada por meio de cerimônias que tentavam controlar a ação das divindades pagãs por meio de rituais marcados por delírio e êxtase, usando a divindade como objeto de realização pessoal. Manter uma religiosidade centrada nas orientações da revelação divina e refutar a religiosidade centrada no arbítrio pessoal é também um desafio para a igreja na atualidade.


Ainda é preciso considerar que Deus não mandou destruir os povos pagãos por mera preferência em relação aos israelitas. Na verdade, todos aqueles que rejeitaram Sua aliança, tanto entre os hebreus quanto entre os pagãos, receberam a condenação. Por outro lado, todos os que escolheram os valores divinos receberam a bênção. O mesmo acontecerá no juízo final (Ap 22).


Filhas de Zelofeade


Embora o povo hebreu formasse uma sociedade patriarcal, o relato sobre as filhas de Zelofeade mostra que o valor da mulher está presente desde a gênese da nação israelita. A Bíblia relata o caso dessas cinco filhas de um pai que havia morrido no deserto sem deixar sucessor do sexo masculino. A partilha da Terra que se conquistaria em Canaã seria definida pelos homens chefes de família. Como o pai havia falecido e as filhas não tinham nenhum irmão, elas pleitearam junto a Moisés o direito de herdar a terra e dar continuidade ao nome paterno. O pedido foi recebido por Moisés e, por orientação divina, foi aceito. Mais do que isso, tornou-se uma lei que passou a regulamentar questões relacionadas a heranças. Se o pai morresse e não deixasse filhos do sexo masculino, a herança passaria automaticamente para a(s) filha(s). 


Se considerarmos que, até recentemente, uma mulher brasileira não poderia obter empréstimo bancário sem expressa autorização do pai ou do marido, vemos que o sistema israelita introduzia novidades em relação ao trato com as mulheres na antiguidade. Segundo Livingston, verdades do Novo Testamento como o fato de que em Cristo não há supremacia entre homens e mulheres, judeus e gentios (Gl 3:26-29) “estavam em estágio embrionário no bojo destas leis antigas”3.


Sucessão


A segunda geração de israelitas, prestes a entrar na Terra Prometida, efetuaria a conquista sob a liderança de um novo comandante. Quando Deus anunciou a Moisés a aproximação de sua morte, sem que pudesse adentrar à terra da promessa (Nm 27:12-23), sua reação foi de maturidade e confiança inigualáveis. Seus pensamentos se voltaram àquilo que seria melhor para o povo, segundo a vontade divina. “Moisés não procurou instalar um de seus filhos, Gérson ou Eliézer. Não confiava em seu próprio raciocínio para estudar a situação e escolher um homem, mas pediu a direção de Deus”4. A sequência de conquistas marcou o acerto de uma decisão de sabedoria superior.


A preocupação com projetos de sucessão está presente em organizações sociais cuja missão é superior em alcance e propósito à vida e à visão de um único líder. Grandes impérios do passado, como aqueles que são listados em Daniel 2, entraram para a história com o tempo de ascensão e declínio contado em décadas ou alguns séculos. 


No Brasil, o conglomerado industrial dos Matarazzo, fundado por imigrantes italianos, teve seu ciclo de sucesso e derrocada no período de quatro gerações5. Conflitos internos e disputa de poder foram a tônica nesses processos sucessórios.


A sucessão também foi uma preocupação de Cristo para que a mensagem do evangelho atravessasse longos séculos e pudesse alcançar-nos hoje. “Ele ordenou que houvesse uma sucessão de homens cuja autoridade proviesse dos primeiros mestres da fé para a contínua pregação de Cristo e este crucificado”6. Contudo, seus verdadeiros sucessores jamais dominaram pelo poder das armas, pela influência do dinheiro nem pela proximidade aos poderes terrenos, mas unicamente pela Palavra de Deus, a qual permanece eternamente (Is 40:8).


“Assim, a sucessão apostólica não se baseia na transmissão de autoridade eclesiástica, mas nas relações espirituais. Uma vida influenciada pelo espírito dos apóstolos, a crença e ensino da verdade por eles ensinada, eis a verdadeira prova da sucessão apostólica. Isto é que constitui os homens sucessores dos primeiros mestres do evangelho.”7


Sacrifícios


Em meio à narrativa do percurso de Israel, encontramos prescrições sobre os sacrifícios. Nos capítulos 28 e 29 de Números, a preocupação principal é com os sacrifícios que os sacerdotes deveriam oferecer em favor de toda a nação. Diante da proximidade da Terra Prometida, a riqueza dos sacrifícios que deveriam ser oferecidos demonstra que Israel estava destinado ao sucesso como uma nação agropastoril. Os cálculos de Wenhan, com base no texto bíblico, revelam que “a cada ano no futuro os sacerdotes iriam sacrificar 113 novilhos, 32 carneiros, 1086 ovelhas, e oferecer mais de uma tonelada de farinha e mil garrafões de óleo e vinho”8.


Todo o antigo sistema sacrifical é uma tipificação do ministério de Cristo e Sua morte na cruz. Entre os rituais, o sacrifício diário dos cordeiros oferecidos todas as tardes e manhãs é o que mais facilmente se identifica com Cristo. “De fato, Ele morreu na hora do sacrifício da tarde. A Sua morte tornou obsoletos os sacrifícios de animais”9.


Votos


O relato de Números 30 oferece diretrizes que regulariam os votos feitos a Deus pelos israelitas. Considerando o pai como líder da família, os votos feitos pela esposa ou pela filha poderiam ser anulados pelo pai. Toda essa preocupação demonstra o valor de um voto feito a Deus.


O voto não pode ser confundido com uma prática muito comum da religiosidade brasileira de “pagar promessas” relacionadas a alguma flagelação pessoal em troca de milagres e curas. 


Jacó (Gn 28:22) e Ana (1Sm 1:11) estão entre os exemplos bíblicos de votos feitos a Deus. Jacó rogou a Deus que o protegesse em seus desafios longe do lar e que o trouxesse de volta à casa paterna. Seu voto foi o de ser inteiramente fiel na devolução dos dízimos. 


Ana clamou por um filho. Sua promessa foi dedicá-lo inteiramente à causa de Deus. Por outro lado, Ananias e Safira (At 5) tornaram-se o exemplo máximo de desonestidade nos compromissos espirituais. 


Esses exemplos asseguram que um voto é um compromisso de dedicação e entrega a Deus. Jamais é uma forma de autopunição para alcançar favores divinos. Por isso é tão sagrado. Por representar uma entrega completa, não pode ser tratado como uma barganha em que se pechincham bênçãos.


Na fronteira


Quando os planos de ocupação da Terra Prometida estavam para entrar na fase de execução, Moisés foi surpreendido pelo pedido dos líderes das tribos de Gade e Rúben para que não precisassem atravessar o Jordão. A região identificada como Transjordânia, onde desejavam ficar, era formada por planaltos, acima do vale do Jordão. Ali era possível desfrutar de terras férteis e um regime de chuvas muito propício à atividade agrária10. Porém, o Jordão era uma das fronteiras do território que havia sido escolhido por Deus para a habitação de Seu povo. Não cruzá-lo era o mesmo que escolher ficar de fora da Terra Prometida. Moisés temeu que essa atitude reproduzisse o mesmo desânimo que se havia abatido sobre o povo no passado, em Cades-Barneia (32:8), quando estavam prestes a alcançar as conquistas, mas retrocederam. O compromisso das duas tribos em lutar ao lado dos seus irmãos até que todos estivessem alojados foi visto, na sequência do relato, como um gesto de boa vontade.


Porém, o plano alternativo ao plano divino trouxe consequências futuras para as tribos de Rúben, Gade e para a meia tribo de Manassés, que se uniu às duas primeiras. “Estas duas tribos e meia receberam uma das porções mais ricas da Palestina, porém seus descendentes pagaram um preço muito elevado. A Transjordânia não dispunha de fronteiras naturais que lhes oferecessem devida proteção contra os invasores. Consequentemente, as outras tribos tiveram de enviar seus exércitos muitas vezes nos séculos seguintes para defender os transjordanianos dos conquistadores estrangeiros (1Sm 11; 1Rs 22:3). 


Há intérpretes da Bíblia que entendem que as duas tribos e meia proporcionam um exemplo do que se passa com os crentes carnais. Satisfazem-se com o livramento da culpa do pecado e não desejam entrar na plenitude do Espírito; por fim, eles são mais vulneráveis aos ataques do inimigo.”11
  1. BAXTER, J. S. Examinai as escrituras. v. 1. São Paulo: Vida Nova, 1992. p. 191.
  2. WHITE, E. G. Patriarcas e ProfetasTatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1993. p. 407.
  3. LIVINGSTON, G. H. et alComentário Bíblico Beacon. v. 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2005. p. 382.
  4. HOFF, P. O Pentateuco. Belo Horizonte, MG: Editora Betânia, 1983, p. 220.
  5. Disponível em: <http://epoca.globo.com/edic/19990628/matarazzo.htm>. Acesso em: 10/12/2009.
  6. WHITE, E. G. Exaltai-O. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1992. p. 269.
  7. WHITE, E. G. O Desejado de Todas as Nações. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1995. p. 467. 
  8. WENHAN, G. J. Números: introdução e comentário (Série cultura bíblica). São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1985. p. 205.
  9. Ibid, p. 208.
  10. Ibid, p. 223.
  11. HOFF, P. O Pentateuco. Belo Horizonte, MG: Editora Betânia, 1983, p. 221-222.



Guilherme Silva
Editor associado de didáticos na Casa Publicadora Brasileira





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