quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Vivendo como filhos de Deus




Até aqui, João se preocupou em alertar os membros de sua comunidade pastoral quanto à dissidência e sua mensagem deletéria para a igreja; ele o fez exaltando a verdade (como é em Cristo) e insistindo na coerência que tem de ocorrer entre conhecê-la e vivê-la (1:5-2:17). Isso feito, ele fez uma breve, porém direta, alusão aos dissidentes, classificando-os, como visto na lição anterior, de “anticristos” (v. 18-26). Ele concluiu esta parte relembrando seus destinatários da unção que haviam recebido de Deus e apelando-lhes a que permanecessem firmes em Jesus (v 27-29).


Ele continua com seu alerta, agora comentando o grandioso privilégio que os crentes desfrutam pelo conhecimento e vivência da verdade: o de serem “filhos de Deus”, isto é, membros de Sua família. É claro, com as implicações daí decorrentes, principalmente em termos da união com o Pai, e do amor de uns para com os outros; tudo como numa família feliz.


Filhos de Deus (1Jo 3:1)


O tema da filiação divina aparece em vários pontos do Novo Testamento, mas principalmente dois de seus escritores o tocam de maneira mais ampla: Paulo e João. A diferença é que, para o primeiro, a filiação é por adoção (Rm 8:15; Ef 1:5), enquanto para o segundo é por geração. Se é verdade que, infelizmente, às vezes uma criança é concebida e finalmente nasce sem que seja desejada, é verdade também que ninguém adota uma criança sem que a queira, sem que seja movido por amor.


No que respeita a Deus, todavia, não importa se por adoção ou por geração, nunca ninguém é recebido como filho que não seja em virtude de Seu grandioso amor; o texto do estudo de hoje é claro a esse respeito. Em outras palavras, nossa divina filiação é uma iniciativa exclusiva de Deus. “O Senhor tomou a iniciativa de fazer isso por nós”, diz a lição. “O novo nascimento é obra Sua (de Deus), não nossa. Não podemos promover nem nosso nascimento nem nossa adoção como filhos de Deus.”


A lição também menciona que não é outro, senão o Criador de todo o Universo, composto de um sem número de galáxias, constelações, estrelas e planetas, que nos escolheu para sermos Seus filhos; e eu diria, num sentido muito mais achegado do que aquele proveniente do ato de ser criado por Ele. De fato, pelo plano da redenção, o pecador arrependido e recebido como filho pode se tornar tão mais íntimo de Deus do que se nunca tivesse pecado.


João emprega o grego gennáō, “gerar”, “nascer”, “dar à luz”, etc., quase vinte vezes no contexto da filiação divina e, destas, umas sete vezes em 1 João.Por exemplo, no prólogo do evangelho ele afirma que todos quantos creem Jesus recebem “o poder de serem feitos filhos de Deus... os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1:12, 13). Depois, ele amplia o quadro narrando o diálogo entre Cristo e Nicodemos, em que a experiência do novo nascimento é referida (3:3, 5, 6-8). Em 1 João, ele sempre faz referência às implicações morais da filiação, a primeira das quais é reservada para o estudo de amanhã.


Resultados e responsabilidades (1Jo 3:2, 3)


Qual é o primeiro resultado de nossa filiação divina? O texto é claro na resposta: “O mundo não nos conhece, porquanto não conheceu a Ele mesmo” (Deus). Pouco antes, João havia exortado seus leitores a que não amassem o mundo (2:15, 16). Agora, indiretamente, ele afirma que o mundo não os ama, algo que ele declara abertamente em 3:13. Também no que respeita ao pecado, tem que haver reciprocidade. Não se pode imaginar que seja amado pelo mundo o cristão que não ama o mundo (cf. Jo 15:18, 19); neste caso, a hostilidade do mundo é bom sinal: “... não vos maravilheis, se o mundo vos odeia.”


Outros resultados aparecem normalmente no decurso das colocações joaninas; estas substanciam os direitos e deveres decorrentes da filiação divina.


Em qualquer aspecto da vida, são-nos atribuídos direitos e deveres, privilégios e responsabilidades. É de lamentar que muitos se empenhem por desfrutar direitos e privilégios, ao mesmo tempo em que fazem de tudo para se livrar de deveres e responsabilidades. Deveriam lembrar que, assim como esperam que seus direitos sejam respeitados, precisariam ciosamente cumprir seus deveres, porque a negligência em fazê-lo significará desrespeito para com os direitos de outrem.


Isto é muito mais verdade na vida espiritual, tanto quanto é mais fútil alguém buscar as bênçãos divinas sem atentar às condições a elas vinculadas. Buscar a filiação divina apenas no interesse de privilégios que tal experiência agracia não é mais que presunção farisaica, uma afronta a Deus! Como se sentiria um pai ao perceber que o filho quer saber dele apenas no que respeita aos benefícios que dele pode obter?


É claro que a relação pai/filho, a exemplo do amor entre ambos, pressupõe a existência de direitos e deveres recíprocos. Como poderemos deixar de amar a Deus se reconhecemos que Ele nos ama a ponto de nos tornar Seus filhos? Só não O amaremos se não quisermos esse privilégio. E, amando ao Senhor, admiraremos cada vez mais Seu modo de ser e de agir, e desejaremos crescer em semelhança a Ele, o que também reúne privilégios e deveres.


A lição lembra que Lúcifer também desejou ser semelhante a Deus, mas de um jeito que acarretou sua própria ruína; ele quis os privilégios com isenção dos deveres. Conforme a lição, “ele não estava interessado em ser semelhante a Deus em caráter.” Cobiçava Seu poder. Também os verdadeiros cristãos anelam a semelhança com Deus, mas “não desejam tomar o lugar de Deus. Desejam ser semelhantes a Ele em amor aos outros, em serviço abnegado, em pureza de pensamento e justiça de ação. Respeitam a diferença básica entre o Criador e as criaturas e não pretendem contrariá-la. Para eles, o mais importante é o amor, não o poder.”


Tornar-nos semelhantes a Ele na forma correta! Bem, esse é o primeiro dever que nos depara o privilégio de ser filhos de Deus. Esse primeiro dever se desdobra na esperança de contemplar Sua face e de estar com Ele, pois o verdadeiro amor demanda que se esteja na companhia do ente amado. Somos aí despertados para o senso de um segundo dever, muito natural naqueles que desejam ver a Deus: purificar-nos “assim como ele é puro.”


Isso não significa que seja nossa atribuição o ato de nos purificar a nós mesmos. A purificação se torna possível somente através do sangue vertido no Calvário (1:7), mas a aceitação desse sacrifício é, aí sim, nossa atribuição. É por esse meio que nos purificamos a nós mesmos em Seu sangue. Ademais, “purificar” em 3:2 se encontra num tempo verbal grego que indica um processo contínuo, uma experiência que progride indefinidamente, paralela ao ato de não viver pecando (v. 6). Isso tem que ser assim se quisermos nos purificar “como Ele é puro.” Deus é o limite da pureza; nunca pararemos de crescer.



Definição de pecado (1Jo 3:4)


O texto de hoje nos traz a conhecida definição de pecado: “...é transgressão da lei”. Mas como João reconhece que pecado transcende o mero ato de pecar (transgressão), implicando, antes de tudo, um estado que condiciona o pecador a essa qualidade de ato, ele emprega, na definição, uma palavra diferente daquelas normalmente vertidas para “transgressão” em nossas Bíblias: anomía, ilegalidade, em vez de parábasis ou paranomía, transgressão.


Como já foi dito, a prática do pecado evidencia uma condição de rebelião, que antecede a própria prática pecaminosa. Assim, anomía é mais que parábasis; aponta para uma situação da qual a transgressão emerge, um estado de falta de equidade, ou igualdade, com o padrão moral absoluto. A maneira como a Almeida Revista e Corrigida verte o texto se aproxima mais do significado de anomía: pecado é iniquidade.


Assim, qualquer coisa que difira do caráter de Deus é anomía, é pecado. Uma criança de tenra idade não é parabátes (transgressora), pois ainda não cometeu atos específicos de transgressão, mas, nascida em pecado como todo ser humano (Sl 51:5), ela é ánomos, dessemelhante do padrão moral absoluto, e, portanto, pecadora (ver comentário à lição de 13 de julho).


Anomía é registrado em 2 Tessalonicenses 2:3 em referência ao “homem do pecado”, o anticristo dos últimos dias: “...o homem da iniquidade”, isto é, aquele que é totalmente sem lei, plenamente dessemelhante do caráter de Deus (ou totalmente equivalente ao caráter de Satanás). A lição toca esse ponto, fazendo a ponte entre o anticristo final e os anticristos dos dias de João. “Essa iniquidade é exibida pelos anticristos em 1 João, rebelando-se notoriamente contra Deus e se alinhando a Satanás. Os membros da igreja são advertidos indiretamente em 1 João 3:4 a renunciar a essa atitude e a todo pecado.”


A Manifestação de Jesus (1Jo 3:5, 8)


Os dois versos para o estudo deste dia afirmam que Jesus Se manifestou “para tirar os pecados” e “para destruir as obras do diabo”. Como cumpre Ele este duplo e sublime propósito? A lição responde que isto se tornou possível por ter Ele morrido na cruz. Mas esse ponto precisa ser ampliado.


Jesus, de fato, “tirou os pecados” e “destruiu as obras do diabo” por aquilo que Ele é e por aquilo que Ele fez, faz e ainda fará. Para constatarmos esse fato, temos que nos valer de diferentes passagens das Escrituras. Vejamos.


Ele é:


1) Deus manifestado na carne (Jo. 1:1, 14) ― alguém menor do que Deus não poderia vencer Satanás, e resolver o problema do pecado. O Antigo Testamento fala de um duelo entre Gabriel e o inimigo, pugna que ficou sem definição até que Cristo veio em apoio ao primeiro (Dn 10:13). Outrossim, para o triunfo sobre o mal, era imprescindível que Ele assumisse a vida na carne (Rm 8:3).


2) Totalmente isento de pecado, não somente de atos de pecado (1Pe 2:22) mas, essencialmente, do próprio pecado (2Co 5:21; 1Jo 3:5). Como alguém maculado com a presença do pecado poderia resolver esse terrível problema? Não haveria condição. A lição se refere a essa inferência, mencionando a “absoluta ausência de pecado em Jesus” como necessária “a fim de que Sua morte na cruz nos salvasse.”


O que Ele fez, faz e fará:


1) Cumpriu fielmente o plano de Deus para Seu ministério terrestre, revelando em Sua vida e morte o real caráter de Deus, o conhecimento do qual garante vida eterna (Jo 17:3, 4). Desmerecer Deus diante do Universo, desfigurando Seu verdadeiro caráter, havia, sido o empenho do inimigo desde o princípio, com sua obra de rebelião,. Com o cumprimento de Sua missão, Cristo desmascarou Satanás e expôs a público e ao desprezo a hediondez de sua obra (Cl 2:15);


2) Morreu pelos pecadores (Rm 5:6; 1Pe 3:18; 1Co 15:3). Foi por Sua morte que Ele triunfou sobre “aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo” (Hb 2:14). Vencida, a morte não pôde retê-Lo na sepultura (At 2:24);


3) hoje, no Céu, intercede pelos pecadores, aplicando àqueles que creem as virtudes salvíficas de Seu sacrifício (Hb 7:25);


4) Voltará para consumar a salvação por Ele provida (Hb 9:28); a consumação de Sua obra salvífica compreende não somente conduzir os remidos à condição de definitivamente salvos em Seu reino (Mt 25:34), mas também a eliminação para sempre do pecado, de seu causador e de todos os que lhe devotaram a vida (v. 41). Então, a Terra emergirá nova, perfeita e imaculada (2Pe 3:13; Ap 21:1). Estará provado e comprovado que Jesus “Se manifestou para tirar os pecados” e “para destruir as obras do diabo” (1Jo 3:5, 8).


Nenhum pecado! (1Jo 3:6, 9)


A lição explica satisfatoriamente a aparente contradição entre 1 João 3:6, 8, 9 e 1:8, 10-2:1. Apenas realço que o verbo pecar, no texto para o estudo de hoje, é registrado, no original grego, no presente do indicativo, um tempo verbal que costumeiramente aponta “para ações contínuas”. De fato, os tempos verbais gregos não se limitam à circunstância de tempo, mas exprimem também a natureza da ação.


Assim, por utilizar o presente do indicativo em expressões negativas quanto à maneira pela qual o cristão se relaciona com o pecado, João deixa claro que ele, em momento algum, adota a posição perfeccionista dos dissidentes (veja o comentário à lição de 13 de julho). Ele não afirma que o crente absolutamente não peca (isso é perfeccionismo), mas que não peca habitualmente, por apego ao pecado. Existe uma grande diferença, observável inclusive no modo como o apóstolo trata o assunto, entre pecar por hábito, o que envolve amor, afeição pelo pecado, e o pecado que o crente comete por ser pecador.


Paulo, por exemplo, afirmou ter morrido para o pecado (Rm 6:2), e que o mundo estava crucificado para ele e ele para o mundo (Gl 6:14); ele, naturalmente, compartilhava, com os que verdadeiramente “são de Cristo Jesus”, da experiência de ter crucificado a carne, com suas paixões e concupiscências (5:24); mas jamais seus lábios proferiram qualquer coisa que desse a mínima impressão de estar sem pecado. Muito ao contrário; quando lemos Romanos 7 com atenção, notamos que este apóstolo jamais pretendeu um estado de não cometimento do pecado. Sensível ao que Deus esperava dele, e ao que a lei, em seu sentido pleno e cristão, dele requeria, confessou: “...não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (v. 19). Em outras palavras, ele pecava, não porque amava o pecado, mas em decorrência de sua condição decaída, a condição de um carnal “vendido à escravidão do pecado” (v. 14) ― “não faço o que prefiro, e, sim, o que detesto” (v. 15). Detestar o pecado é precisamente o contrário de amar o pecado.



Assim, foi ele dando um relatório de seu próprio desempenho na vida cristã, reconhecendo sua fraqueza, sua própria ineficácia, até extravasar seu desalento: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (v. 24); mas só para exclamar em triunfo: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” (v. 25).


Essa é a maneira paulina de expressar o que João mais tarde declarou: “Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo” (1Jo 2:1).


Autor: José Carlos Ramos – D. Min




Um comentário:

  1. bom, Deus e maravilhoso leia e mediti ezequel 20:12,salmos 33:6,9 exodo 16:22,23 genisis 2:2,3 exodo 20:10 isaias 56:2-7;58:13,14 leviticos23:32 isaias66:23 palavra de Deus fas bom a alma

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