sábado, 20 de março de 2010

A essência do caráter cristão (comentário)





Ao longo deste trimestre, e até este momento, estudamos as virtudes mencionadas em Gálatas 5:22, 23 e em Efésios 5:8-10. Na sequência, examinaremos com mais atenção outras virtudes mencionadas em outros textos. A primeira delas, ainda nos escritos de Paulo, e as seguintes, apontadas por Pedro.

I. Outros aspectos do fruto do Espírito

Esperança (Rm 5:4-5). No grego, elpis. O substantivo e o verbo correspondente aprecem 82 vezes no Novo Testamento, sendo a maioria nas cartas de Paulo. A esperança parece ser uma das marcas da humanidade. É comum ser dito que a esperança é a última que morre, e pessoas de todas as idades e classes sociais parecem tê-la. 
Todavia, frequentemente, essa esperança diz respeito apenas a esta vida e a obter coisas. 

A esperança do cristão é substancialmente diferente, porque tem sólidos fundamentos: o caráter de Deus, Seus poderosos atos e Suas promessas (At 24:15; 26:6; 1Ts 2:16). Focaliza-se na segunda vinda de Cristo, acontecimento chamado de “a bendita esperança” (Tt 2:13). Sim, o plano da salvação compreende muito mais do que perdão e completo livramento do mal. Temos uma preciosa herança, pois somos herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo (Rm 8:17). Essa herança é preciosa, eterna e infinita, e começará a ser nossa a partir da volta de Cristo (Mt 25:34).

A esperança cristã tem efeitos altamente positivos em nossa vida e realmente faz diferença: exerce influência transformadora; muda nossas perspectivas e escolhas; traz alegria e paz em meio às lutas e decepções do presente, remove o medo e o substitui por amor e confiança, e nos torna operosos e sobremodo esforçados na obra de Cristo (1Tm 4:10). Ao contrário, uma existência sem esperança em Deus e em suas promessas resulta na incerteza do amanhã, na certeza da morte e da transitoriedade da vida. É semelhante à vida de Salomão quando se encontrava longe de Deus. A pessoa pode ter tudo, mas isso não é o bastante, é pura canseira e vaidade, é como correr atrás do vento (Ec 1:8, 14; 2:1-11).

A vida com Deus é rica de esperança, no poder do Espírito Santo (Rm 15:13), pois estamos cientes de que teremos um glorioso futuro se hoje formos fiéis a Cristo (Cl 1:5; Ap 21:1-7).

Nos dias dos apóstolos, era costume, mesmo entre os pagãos, preparar catálogos de virtudes. Assim, Pedro nos apresenta, a exemplo de Paulo, uma lista das virtudes que devem ser encontradas na vida do cristão autêntico. Antes de citá-las, porém, ele nos diz que essas qualidades são possíveis porque somos “co-participantes da natureza divina” (2Pe 2:4), isto é, estamos unidos a Cristo (e, como um bebê compartilha da natureza de seus pais, nós, os que nascemos de novo, compartilhamos da natureza de Deus), e temos à nossa disposição “Seu divino poder” e “Suas preciosas e mui grandes promessas” (v. 3, 4).2 Declara, ainda, que, a fim de que as virtudes se manifestem em nosso caráter, esses recursos divinos estão à disposição também para que nos livremos “da corrupção das paixões que há no mundo” (v. 4) e que a fé – nossa resposta positiva ao amor de Deus – é o fundamento sobre o qual estão edificadas as qualidades cristãs (v. 5). A lista elaborada por Pedro encontra-se nos versos 5-7. Meditemos naquelas que ainda não foram estudadas nesta série de lições bíblicas.

Virtude (v. 5). No grego, aretē. Aparece apenas cinco vezes no Novo Testamento e não tem correspondente no hebraico do Antigo Testamento.3 Originalmente, era utilizada para retratar a qualidade específica apropriada a um objeto ou pessoa.4 Mais tarde foi empregada para coisas, animais, homens e deuses e denotava sua qualidade excelente.5 Desse modo, “a excelência de uma faca é cortar, a de um cavalo é correr”.6 Quando aplicada a Deus, como em 2 Pedro 1:3, refere-se à Sua perfeição; quando empregada em relação aos cristãos, é um termo geral referente a seu comportamento bom e correto.7

Conhecimento (vs. 5-6) – Do grego, gnōsis. Este termo é empregado com seus cognatos centenas de vezes no Novo Testamento, especialmente por João e Paulo. Aqui, nesta carta de Pedro, gnōsis é o elemento intelectual em nossa personalidade. É a sagacidade ou sabedoria prática que nos capacita a distinguir entre o bem e o mal e a perceber o caminho para fugir do mal (Hb 5:14).8 É a “capacidade de lidar com a vida de modo adequado”,9 a qual vamos adquirindo à medida que seguimos obedecendo à vontade de Deus.10

Perseverança (2Pe 1:6) – Do grego, hypomonē. Denota paciência e, literalmente, se refere à “capacidade para permanecer debaixo de um grande peso”.11 Jesus usou o verbo cognato quando discorreu sobre os últimos dias: “Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 24:13) e o mesmo substantivo, ao contar a parábola do semeador e referir-Se à semente que caiu em boa terra e que representa aqueles que “tendo ouvido de bom e reto coração, retêm a palavra” e “frutificam com perseverança” (Lc 8:15). Paulo também empregou o termo algumas vezes. Ele escreveu, por exemplo, que Deus dará “a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e incorruptibilidade” (Rm 2:7) – o que pode ter tanto “o sentido ativo de ‘firme persistência na prática do bem’, como também o sentido passivo de ‘resignação paciente’ diante das dificuldades”.12 Aquele que é perseverante permanece “firme nas circunstâncias difíceis” e em meio “às pressões e problemas da vida”.13 Isso é possível ao cristão porque ele sabe que Deus, seu Pai, está no controle de todas as coisas e que, por isso, “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o Seu propósito” (Rm 8:28). Ele avalia tudo que lhe ocorre em relação com a eternidade e as promessas de Deus. Desse modo, a tribulação de agora lhe parece leve e momentânea em comparação com a glória que há de receber, que será pesada e eterna (2Co 4:17), e ele pode gloriar-se na própria tribulação, sabendo que Deus a empregará para a formação de seu caráter segundo o padrão divino (Rm 5:3-4).

Piedade (1Tm 6:11; 2Pe 1:6, 7) – No grego, eusebeia. É empregada apenas 15 vezes no Novo Testamento; e seus cognatos, menos ainda. Traz a ideia de “semelhança com Deus”.14 No trato com Deus significa reverência e no trato com os homens, respeito.15 Nesta carta de Pedro é uma referência ao estilo de vida do cristão, que conserva constantemente diante de si a volta de Cristo (3:10-13).16


II. Empecilhos à produção do fruto do Espírito


Quando alguém semeia, sua intenção é colher o respectivo fruto. Ele espera que a semente germine, brote, cresça e resulte em boa colheita. Todavia, podem surgir obstáculos que o impeçam de alcançar seu propósito. Jesus nos alertou sobre isso quando contou a parábola do semeador (Lc 8:5-15; cf. Mt 13:3-8, 18-23; Mc 4:3-20). Ali, a semente representa a Palavra de Deus e ela cai em quatro tipos de solos, que são símbolos daqueles que são alcançados pelo evangelho.


(1) Uma semente caiu à beira do caminho. Este solo estava tão duro e batido que nem sequer acolheu a semente. E logo vieram as aves e a comeram. É como se aquela semente nunca houvesse sido lançada nele. Esse solo representa aqueles que têm contato com a Palavra, mas não a entendem. Eles não a compreendem porque estão desatentos e desinteressados. São como doentes que não sabem de sua condição e, por isso, não se interessam pelo remédio que lhes traria cura. Pela ação do diabo, a Palavra logo sai de sua vida, nada lhes aproveitando.


(2) Outra semente caiu sobre a pedra, um solo rochoso onde a camada de terra era muito fina. O solo a recebeu e ela chegou a germinar e a brotar, mas, quando precisava crescer, não havia espaço para as raízes. O sol fez seu trabalho, mas faltou umidade e os ingredientes necessários ao crescimento. Essa é uma representação daqueles em quem a religião é superficial. Aceitam o evangelho imediatamente e o fazem com muita alegria, mas são de pouca duração. Por baixo dos bons desejos há uma sólida camada de egoísmo. Como este solo conserva a semente e a pedra ao mesmo tempo, eles tentam servir a si mesmos e ao evangelho, e isso não é possível. Quando vêm as provações e as dificuldades próprias da vida cristã, eles logo desistem.


(3) Uma terceira semente caiu em um solo cheio de espinhos, o qual a recebeu. Ela vingou, cresceu e deu frutos, mas estes não chegaram a amadurecer. Qual foi a razão? O solo quis conservar simultaneamente a semente e os espinhos e, embora parecesse dar certo por algum tempo, no fim revelou-se um fracasso: seu fruto não tinha nenhuma serventia. Os espinhos cresceram com a boa planta. Ela crescia, é verdade, mas eles também cresciam. E, com o tempo, eles a sufocaram. Que espinhos são estes? Jesus disse que são os cuidados do mundo, a fascinação das riquezas e os deleites da vida. Nesta vida, todos nós temos cuidados e preocupações, que podem ser legítimos e necessários. Podem nem ser pecaminosos em si mesmos. Todavia, tornam-se um entrave em nossa vida espiritual porque nós os priorizamos. Isso acontece quando estamos tão atarefados que não temos tempo para Deus: tempo para orar, estudar a Palavra, cultuar o Criador e testemunhar. Então, a semente do evangelho em nós fica sufocada. Nossa vida espiritual não prospera e o fruto do Espírito, as virtudes cristãs, não se manifestam como Deus planejou. O segundo espinho é a fascinação das riquezas, o que pode afetar ricos e pobres. Algumas vezes diz respeito mais a alguns pobres do que a alguns ricos. Isso ocorre porque os que ficaram ricos e descobrem que a riqueza não proporciona tudo aquilo que haviam imaginado. Por outro lado, os pobres, por não terem passado por essa experiência, ainda não sabem disso e estão lutando dia e noite na busca de mais bens. É uma “fascinação” –  no grego, apatē, um “engano, logro”.17 


Queremos mais coisas. Sonhamos com mais coisas. Trabalhamos para ter mais coisas. Oramos por mais coisas. E assim temos uma vida fascinante, mas de engano. Enquanto que aquilo que é o mais importante, nossa vida espiritual, permanece abafada. Outro tipo de espinhos são os deleites da vida, aquelas diversões e prazeres que “fazem guerra contra a alma” (1Pe 2:11) e minam nossa força espiritual. E disto o mundo está cheio e cada vez mais.18


Felizmente, ainda é tempo de modificar estes três tipos de solos, de modo que se tornem em terra boa e produtiva. Desse modo, a terra dura pode ser revirada e afofada, e as pedras e os espinhos podem ser retirados. Pela graça de Deus, podemos ter um coração receptivo à Palavra, um coração que a retenha apesar de suas exigências e que busque compreendê-la. Somente dessa maneira é que podemos frutificar e o fruto em nós pode amadurecer.


III. Cultivo do fruto do Espírito


Aprendemos que as virtudes cristãs são um fruto. Como os frutos de qualquer planta não surgem repentinamente já prontos e maduros, antes, vão crescendo e maturando pouco a pouco, da mesma forma as virtudes devem crescer e maturar gradualmente em nossa vida. Além disso, o fato de serem chamadas de “fruto do Espírito” nos ensina que elas não vão despontar por uma ação meramente humana; antes, derivam da obra do Espírito em nós. Elas são obra de Deus. Também devemos considerar que, embora uma semente tenha em si mesma um princípio de vida dado por Deus, e que é Ele quem realiza a obra de crescimento, frutificação e maturação, o homem tem sua parte a desempenhar. Assim, se você colocar uma semente sobre o asfalto, nada vai acontecer. Você precisa semear num lugar favorável. Precisa limpar o terreno e adubar e, conforme a espécie, podar de tempos em tempos. Semelhantemente, o cultivo das virtudes requer nossa cooperação. Deus age, e nós agimos com Ele. Paulo aconselhou: “Desenvolvei a vossa salvação... Deus é quem efetua em vós” (Fp 2:12, 13) e Pedro, ao começar sua lista de virtudes, o fez com a expressão “reunindo toda a vossa diligência” (2Pe 1:5), o que transmite a “ideia de empregar todo esforço possível. Devemos trazer a este relacionamento, ao lado do que Deus já fez, cada grama de determinação que pudermos carregar”.19


Ao encerrar esta série de estudos bíblicos, concluímos que a vida cristã – a vida daquele que foi justificado por Cristo e que se encontra no processo da santificação – não consiste apenas em renegar o pecado, mas também em desenvolver um bom caráter. Precisamos nos despir dos defeitos e vícios e nos vestir das virtudes (Cl 3:5-15). Devemos ser conhecidos não somente por aquilo a que nos opomos, mas também por aquilo que propomos.20 Desse modo, pode ser dito que a essência do caráter cristão consiste na produção do fruto do Espírito: as preciosas virtudes – que não são desenvolvidas automaticamente, antes, resultam da operação do Espírito de Deus em nossa vida e de nossa cooperação com Ele, com muita determinação, disciplina e esforço.


Que Deus o abençoe em seu desígnio de continuar cooperando com o Espírito Santo na produção do bom fruto e que isso seja para a Glória de Deus!



Emilson dos Reis atuou como pastor distrital em diversas igrejas no Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rio Grande do Sul. Foi pastor e professor no Instituto Adventista Cruzeiro do Sul e no Centro Universitário Adventista de São Paulo. É doutor em Teologia Pastoral e  diretor da Faculdade Adventista de Teologia no UNASP, onde também leciona as disciplinas de Introdução Geral à Bíblia e Homilética. É autor dos livros: Introdução geral à Bíblia; Aprenda a liderar; Como preparar e apresentar sermões e O dom de profecia no púlpito.


Referências biblográficas


2. Michael Green, II Pedro: Introdução e comentário (São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1983), 61-63.
3. H.-G. Link e A. Ringwald, “Virtude, inculpável”, Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, 4 Vols., editado por Colin Brown, traduzido por Gordon Chown (São  Paulo: Vida Nova, 1985), 4:775-776.
4. Ibid., 4:774.
5. Ibid.; Ray Summers, “II Pedro”, Comentário bíblico Broadman, editado por Clifton J. Allen, traduzido por Adiel Almeida de Oliveira (Rio de Janeiro: JUERP, 1984), 12:208.
6. Green, 64.
7. Link, 4:776.
8. Green, 64; Summers, 12:208.
9. Warren W. Wiersbe, Comentário bíblico expositivo, 6 vols. (Santo André: Geográfica Editora, 2006), 6:565.
10. Ibid., 6:566.
11. Summers, 12:208.
12. U. Falkenroth e C. Brwn, “Paciência, firmeza, perseverança”, Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, 4 Vols., editado por Colin Brown, traduzido por Gordon Chown (São  Paulo: Vida Nova, 1985), 3:379-380.
13. Wiersbe, 6:566; Green, 66.
14. Wiersbe, 6:566; Summers, 12:208.
15. Green, 66; Wiersbe, 6:307.
16. W. Günther, “Piedade, religiosidade”, Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, 4 Vols., editado por Colin Brown, traduzido por Gordon Chown (São  Paulo: Vida Nova, 1985), 3:547.
17. Fritz Rienecker e Cleon Rogers, Chave lingüistica do Novo Testamento grego (São Paulo: Vida Nova, reimpressão 1988), 72; W. Günther, “Enganar, lograr, desviar”,Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, 4 Vols., editado por Colin Brown, traduzido por Gordon Chown (São  Paulo: Vida Nova, 1985), 2:38.
18. Ver Ellen White, Parábolas de Jesus, 33-61.
19. Rienecker, 570-571.
20. Wiersbe, 6:307.


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